Trechos do meu livro "Vidas de Vidro" que, em breve, será lançado!




          (...) "A casa onde Amanda e o pai residiam estava situada em um lugar
calmo, com poucos vizinhos e muitos cães pelas ruas, surgidos de becos
vizinhos. As janelas eram altas, de madeira respingada pelas mãos do tempo,
que não perdoavam. A escada que rangia sua nota rouca lembrava um
mugido, denunciando todos que nela pisassem. À sombra de uma árvore
ficava o banco do jardim, trazendo a lembrança de uma mãe muito afável a
velar pela infância dos filhos, que saltitavam pelo pátio. Talvez fosse aquela
lembrança doce que trazia a nostalgia à moça perdida em sonhos diante da
janela, durante aquele outono." (...)



        (...) "O vício que arrastava Marcelo para o profundo abismo em que
raros retornavam, levava consigo, em desespero, a médica que, no seu vasto
conhecimento da ciência, perdia-se em sua leiga experiência de vida em
relações sentimentais e humanas. Não havia, no mundo tóxico, nada que
Marcelo desconhecesse, ou que seu corpo rejeitasse, destruindo-o dia a
dia. Eclodindo como um vulcão assassino, demolindo a vida e detonando
neurônios, dilaceravam não somente a saúde, mas principalmente a paz
dos envolvidos. Amigos afastavam-se e familiares esquivavam-se diante da
opressora dimensão do problema que julgavam não ter solução, recusando-se
a ponto de ignorar os fatos. A solidão que acompanha os casos de viciados e
seus principais interessados chegava ao ponto em que, nem mesmo Natália
tivesse ainda o propósito de salvar o irmão, tamanha a incapacidade de uma
só pessoa em combater tal inimigo. O exército da esperança estava sendo
vencido pela arma mortal contida em uma pequena seringa." (...)


       (...)"O quarto que os separava do mundo significava o limite entre o viver e
o existir. As paredes descoloridas eram pintadas pelas fantasias que uma mente
jovem e imaginativa tingia. Os medos, espectros de sombras, divagavam pelo
passado que deixava os minutos parecerem segundos e as horas separarem
dois mundos, antes e depois.
O sal de suas peles transpiradas de amor escorria pelo futuro que
ansiavam por dividir. Nada mais seria só, uma alma que procura por outra e
repentinamente encontra, assalta-se e revela-se em felicidade, resumo do fato.
Pregadas à pele as digitais do ato do amor. Gravadas entre ilusões e
fantasias de duas mentes jovens, ansiosas por vida. Amanda filmava em sua
memória o rosto tranquilo que dormitava ao seu lado, inconsciente dos
olhos negros que vislumbravam o seu aconchego. A mente vazia divagava
por entre os cabelos louros e despenteados do rapaz. O sorriso preso entre
os lábios denunciava a felicidade que sentiam. A inconsequência desmedida
cegava a réstia de consciência que ainda pudesse emergir de algum lampejo.
O futuro nada tinha a dizer, e o presente escorreria das mãos como areia, nada
importaria naquele momento." (...)

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